“Porque que é que as autoridades de supervisão ancoram o seu discurso no desconhecimento daquilo que é conhecido nos círculos políticos e empresariais?”(…)
É difícil não escrever sobre a crise. A sociedade da (des)informação está a demonstrar possuir o condão de transformar tempos (para muitos) catastróficos num autêntico circo à escala mundial. Os malabaristas têm estado por todo o lado a anunciar um 2009 negro, as televisões publicitam políticos ilusionistas a renascer das cinzas, os jornais apresentam alguns patrimónios cerrados com magia e sem derrame de sangue, a arte do trapézio é assegurada nos mais diversos fóruns, a que não faltam monstros que até já foram belos e lobos com pele de cordeiro.
Enquanto uma boa parte do Mundo continuar absorta por este triste espectáculo, a sua presença em cartaz estará assegurada. O facto de as soluções, as medidas e os pacotes surgirem como cogumelos é, paradoxalmente, mais um sintoma da sua provável duração prolongada. Assim, é recomendável discernimento e racionalidade, pois a recente exuberância dos cidadãos e o pânico de políticos não deve ceder com facilidade o lugar ao pânico dos cidadãos e à exuberância de políticos.
Vale a pena dar um passo atrás e, em vez de procurar ou apresentar respostas vãs para a crise, ir em busca de perguntas sãs que fornecem pistas para a sua origem. Por exemplo, por que será que:
• se repete a história de as autoridades de supervisão ancorarem o seu discurso no desconhecimento daquilo que é do conhecimento generalizado nos círculos políticos e empresariais?
• a recente atitude do presidente da SEC é insólita, embora tenha consistido em reconhecer o óbvio: a instituição negligenciou diversos indícios da fraude perpetrada por Madoff?
• a Dona Branca, o Pedro Caldeira e o Bernard Madoff não serão os últimos herdeiros da sabedoria Ponzi, apesar de a comunicação social divulgar sempre a forma “como foram enganados os investidores” (ou será gananciosos e especuladores)?
• certas entidades oferecem (por vezes até garantem) rentabilidades anormais e ninguém investiga, quando é evidente que no mínimo são reflexo de um prémio de risco elevado?
• apesar da típica discrição inglesa, há cerca de dois anos um dos responsáveis pela supervisão da City fez um aviso geral (alegadamente o primeiro da história), afirmando que não toleraria mais manipulações do mercado?
• há cerca de cinco anos um dos principais actores da praça londrina afirmou (ipsis verbis) ao Financial Times que “as pessoas são estúpidas, nós só as ajudamos a ser mais estúpidas”?
• embora poucos conheçam o seu autor (Robert Frost), qualquer pessoa recita que “um banco é o local onde emprestam o guarda-chuva quando está bom tempo e o pedem de volta quando começa a chover”?
• os bancos passaram de vilões a garantes do funcionamento da economia num ápice, obrigando presidentes de governos e de bancos centrais a implorar para que concedam crédito capaz de salvar as empresas?
• os mais abastados são quem mais perde nas crises, mas as desigualdades sociais aprofundam-se ainda mais nesses períodos?
• as crises diminuem a indignação geral em relação às exigências de grupos de pressão (ex. os sindicatos ou o lobby das obras públicas) e ao desgoverno em matéria de estratégia e rigor orçamental, o que torna as gerações futuras ainda mais reféns dos disparates, das ineficiências e ineficácias actuais?
• o gigante alemão Siemens pagou mais de quatro mil subornos em todo o Mundo para obter adjudicações, um investimento de mais de mil milhões de euros?
• a generalidade das pessoas está de tal forma habituada a embarcar na procura de respostas a perguntas que lhes são induzidas, sem questionar se essas são as questões apropriadas para espelhar o(s) problema(s) existente(s)?
Post Script: reconhece-se e assume-se a atitude atípica de apresentar um artigo de opinião dominado pela interrogação; contudo, é na tentativa de resposta a perguntas que de facto acantonam o(s) problema(s) que se encontram soluções efectivamente sustentáveis e colectivamente mais justas.
N.R. Os artigos anteriores sobre esta análise foram publicados nas edições de Novembro e de Dezembro da
e podem ser lidos neste website.PERFIL Paulo Bento é co-fundador da for value e professor no ISCTE (Estratégia; Projecto Empresarial Aplicado).
Foi consultor no Banco de Portugal (até 1999), onde analisou as principais fusões e aquisições na banca portuguesa (BCP-BPA, BPI-BFE/BFB/BBI, BES-BIC, Mundial Confiança-Totta). É licenciado em Organização e Gestão de Empresas (ISCTE, 1992), mestre em Finanças (ISCTE, 1998) e doutorado em Fusões, Aquisições e Reestruturações de Empresas (Manchester University, 2004).
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Análise publicada na edição da
nº 48, de Janeiro de 2009

















