Somos lestos a questionar a mentalidade de terceiros, mas não prestamos atenção à nossa e, menos ainda, às armadilhas que a mesma espalha pelo percurso
Se se considerar que a mentalidade é o conjunto de opiniões que comandam o pensamento de um indivíduo ou de um grupo social, poder-se-á afirmar que em Portugal (mas não só), ao invés da tolerância, o colesterol, o stress, o rigor, a burocracia ou o preconceito são (apenas) maus. Fala-se e repisa-se os malefícios do colesterol (desprezando que é uma substância essencial presente nas células), do stress (esquecendo que se trata da capacidade do ser humano em adaptar-se a novas situações), da burocracia (omitindo que a despersonalização e racionalização das tarefas tem sido vital ao desenvolvimento das organizações) e dos preconceitos (ignorando que pode tratar-se apenas de um conceito formado previamente). Ocorre o oposto com a tolerância, em relação à qual parece não haver discussão ou limite máximo.
Reconhecidos os inúmeros malefícios (in)directos e (i)mediatos da intolerância, vale a pena deambular um pouco pela tolerância. Usa-se o período de formação educativa como baliza e assume-se o seguinte preconceito: a tolerância também tem duas faces e, quando em excesso, relaxa, desresponsabiliza, desinteressa e, paradoxalmente, alimenta a intolerância.
A convivência com a tolerância começa bem cedo, nos bancos da escola. Os alunos habituam-se a conviver com um toque de tolerância: o “segundo toque”. A criança adopta como hora de início da aula o “segundo toque” e quando o desrespeita apela ainda à tolerância adicional do professor.
Nas primeiras visitas de estudo, as crianças interiorizam que a sua pontualidade antes da partida não é premiada. A recompensa vai para os que se atrasam, sob a forma de tolerância (ainda que, por vezes, a par de uma reprimenda momentânea e estéril).
Ao longo do ensino secundário, graças a pais e professores que (ab)usam (de) uma oferenda quase divina, ainda que não universal, os adolescentes assimilam a existência de uma importante dádiva: a tolerância de ponto – uma irresponsabilidade nacional com consequências para o País.
À entrada na universidade e em idade de conduzir, os jovens já têm consciência de que a velocidade máxima na auto-estrada é de 120 Km/h, mas que a polícia consente até 140-150 Km/h. Ainda que desconhecendo a tolerância exacta nas restantes vias, sabem que até nas assinaladas com “tolerância 0” já existe tolerância.
À saída da universidade os alunos são conhecedores da meia hora de tolerância que o professor concede minutos antes de o teste “terminar”, se o queixume da turma for vigoroso. Dominam também o cardápio de desculpas e “justificações” para não efectuarem apresentações, para solicitarem a prorrogação - nunca a antecipação - das datas das mesmas ou da entrega de trabalhos.
A convivência e o treino escolares são complementados, ou mesmo alavancados, pela tolerância no seio da família. Quando isso não acontece, os terapeutas aconselham a que assim seja.
A vida fica mais difícil para (quase) todos e, com tanta tolerância, há quem vaticine o dia em que os cidadãos se tornam intolerantes, em relação a:
- avaliadores que se julgam no direito de não serem avaliados;
- alunos que agridem professores porque estes não toleraram a sua conduta;
- edilidades que recuam no estacionamento regulado, pactuando com a prevaricação;
- obras públicas que invariavelmente derrapam, para níveis absurdos de tolerância ao orçamento inicial;
- reguladores que não erradicam publicidade e informação enganosa, tolerando práticas menos claras;
- regimes de excepção, prévios e à posteriori;
- perdões e despenalizações de vária ordem, em nome da tolerância.
Com tanta tolerância, quem estranha a falta de rigor, a baixa produtividade, a ausência de meritocracia, ou que haja mais portugueses a desistir do que a fracassar?
PERFIL Paulo Bento é co-fundador da for value, investigador do Management Research Center e professor da ISCTE Business School (Estratégia; Projecto Empresarial Aplicado).
Foi consultor do Banco de Portugal (até 1999), onde analisou as principais fusões e aquisições na banca portuguesa (BCP-BPA, BPI-BFE/BFB/BBI, BES-BIC, Mundial Confiança-Totta). É licenciado em Organização e Gestão de Empresas (ISCTE, 1992), mestre em Finanças (ISCTE, 1998) e doutorado em Fusões, Aquisições e Reestruturações de Empresas (Manchester University, 2004).
Análise publicada na edição nº 51 da revista
, de Abril de 2009


















