
Mais do que empresário é um dos impulsionadores dos “anjos de negócio”. Descubra o que move o homem que quer fazer uma fundação para ajudar jovens empreendedores
Tinha 23 anos quando criou a sua primeira empresa – a Gesbanha – para dar enquadramento a uma forma diferente de fazer contabilidade. E não esquece que, para o fazer, teve o apoio e entusiasmo de António Mourato, o patrão que viu nele a centelha do empreendedorismo. Estávamos em 1986 e o jovem Francisco Banha recebeu um empurrão determinante daquele que ainda hoje considera o seu “pai empresarial”. Talvez esse tenha sido o instante determinante para que hoje seja ele um dos principais impulsionadores do País no que toca ao apoio de jovens com iniciativa empresarial. Essa dedicação fez com que fundasse no ano 2000 o primeiro Business Angel Club em Portugal – um conceito quase desconhecido por cá. A evolução deste modelo muito deve à iniciativa do próprio Francisco Banha.
Numa entrevista exclusiva à
partilha a história e os momentos críticos do empresário, na primeira pessoa. E admite que ainda faltam dois sonhos. Um é conseguir apoiar e acompanhar uma empresa desde a fase de criação do projecto até à sua entrada no mercado bolsista. O outro, de grande envergadura, é poder vir a criar a fundação Francisco Banha, que servirá para apoiar jovens com menores recursos para que estes possam, através do empreendedorismo, atingir a sua independência, seja criando o seu próprio emprego, seja preparando-os para o mercado de trabalho.
Como evoluiu a Gesbanha para dar origem às várias subsidiárias?
A Gesbanha soube aproveitar a aprendizagem de trabalhos realizados com clientes de diversos sectores - banca, turismo, indústria automóvel, saúde, ambiente, entre outros – dimensões e nacionalidades. Desde cedo percebemos que não poderíamos permanecer no mercado da contabilidade a trabalhar com inúmeros pequenos clientes interessados apenas em declarar o IVA e o IRC. Nunca entendi a contabilidade na perspectiva “obrigatória”, mas sim na óptica de recolha e análise de informação que seja vital para a tomada de decisão por parte da gestão do cliente. Focámo-nos em angariar clientes de maior dimensão, com preocupações ao nível financeiro (…) orgulhamo-nos de ser, em 1998, a primeira empresa de contabilidade certificada pela norma ISO 9001.
O trabalho com alguns clientes ligados à área do capital de risco aumentou o meu interesse pelo financiamento das empresas em fases iniciais de desenvolvimento e pelo empreendedorismo, conceito ainda muito ignorado em Portugal. Este tema motivou-me, no âmbito do MBA que realizei em 1994, à minha tese de mestrado - “O Impacto da Fiscalidade no Sector de Capital de Risco”. E a perceber que muito havia a fazer para tornar Portugal um País atractivo para os investidores em capital de risco e, consequentemente, para os empreendedores lançarem as suas empresas.
Em 1999 surgiu a Gesventure, uma catalizadora de capital de risco, com o objectivo de apoiar empreendedores. Em 2000, a Gesventure dá voz a um outro conceito desconhecido em Portugal – os Business Angels - e cria o Business Angel Club, primeiro clube do género.
Em 2006, surge a terceira empresa do grupo. A GesEntrepreneur, é criada após contactos com Chris Curtis, um guru canadiano de empreendedorismo que se torna sócio da nova empresa e vem a Portugal difundir o empreendedorismo sob a metodologia Learning by Doing (aprender fazendo). (…)
Em 2009 foi criada a GesEvolution, uma empresa que agrega os vários serviços do grupo e procura actuar a um nível mais local, estando o projecto-piloto sedeado em Penela, no distrito de Coimbra.
É um dos pioneiros em várias áreas em Portugal, nomeadamente empreendedorismo, capital de risco e Business Angels. Como é que se consegue introduzir estas modalidades no nosso tecido económico?
Os termos empreendedorismo, capital de risco e Business Angels são três conceitos muito interligados, daí ser difícil defender um sem qualquer dos outros. Cada um surgiu a seu tempo e a minha vivência mostra-me que, por mais esforço que eu coloque na dinamização de cada um deles, tenho de dar tempo ao mercado para os assimilar.
Iniciei a Gesventure muito focada no capital de risco, algo que existia já em Portugal mas apenas um capital de risco dirigido aos grandes investimentos, muitos deles bastante seguros e sem qualquer risco. Considero-me um pioneiro nos esforços que fiz ao nível de intervenções públicas e sensibilização de responsáveis pelas sociedades de capital de risco para que se desse uma movimentação deste sector no sentido do risco. Não do risco irresponsável, mas do risco associado a projectos mais pequenos que, sem capital de risco, não conseguiriam ver a luz do dia e que apresentam um bom potencial de valorização e crescimento. (...)
Ao nível do empreendedorismo decorreu algo semelhante. Sem modéstia, reconheço que fui uma das primeiras pessoas em Portugal a defender a via do empreendedorismo. Nessa altura, o empreendedorismo era algo muito distante, incomparável ao que é hoje. Hoje, existem dezenas de eventos dedicados ao tema, cursos que cobrem desde o ensino primário ao universitário, cursos para formadores de empreendedorismo, incubadoras de empresas e uma mobilização da agência para o desenvolvimento empresarial IAPMEI que contribui nesse sentido. (…)
Os Business Angels e a criação do primeiro clube do género em Portugal - Business Angels Club – hoje a maior Associação Portuguesa de Business Angels, estão intimamente associados aos dois outros conceitos. Por um lado, procura estimular a intervenção de investidores interessados em preencher a falha de financiamento existente entre os recursos próprios/crédito e o capital de risco e, por outro, aproximar os empreendedores destes investidores e apresentá-los como alternativas credíveis ao financiamento dos seus planos de negócios. Mais uma vez, a introdução desta figura em Portugal levou o seu tempo e só agora, em 2010, reconheço estarem reunidas as condições fiscais e de estímulo à actividade adequadas ao seu desenvolvimento.
Quando avançou com a criação do clube de BA foi fácil convencer outros empresários?
O termo Business Angel pode parecer um pouco estranho, mas nada tem de alheio à realidade. Inúmeros empresários e gestores que conheço já investiam, informalmente, em negócios de familiares ou conhecidos, acreditando no seu potencial e contribuindo com capital e conhecimento no desenvolvimento e crescimento dos mesmos. O termo Business Angel e a sua integração na nossa sociedade procura, no entanto, passar a mensagem não só da existência de investidores que investem para além da sua rede familiar/ social, ao serem acessíveis a qualquer empreendedor como do facto de que um Business Angel não o é ocasionalmente ou por mero acaso, mas sim alguém que procura activamente projectos e se “profissionaliza” no acompanhamento dos mesmos. Este aspecto da profissionalização é uma das principais preocupações quer da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels) bem como da EBAN (Associação Europeia de Business Angels) e da WBAA (World Business Angels Association). (…)
Qualquer Business Angel sabe que vai ter perdas ao longo do processo. O essencial é trabalhar para cometer cada vez menos erros na selecção e apoio aos projectos para que possa identificar o próximo “Google” quando o vir à distância.
Qual é a motivação para criar e ajudar na criação de empresas?
Podíamos pensar que o móbil de um Business Angel é exclusivamente a rentabilização do seu capital. Não é verdade. Se assim fosse, nestes 10 anos que me custaram dinheiro e muito trabalho para apoiar a construção de um ecossistema empreendedor, em particular estimular outros Business Angels e sensibilizar empreendedores, teria feito melhor se aplicasse o dinheiro em activos mais seguros. Como Business Angel move-me, sobretudo, acreditar que existem empreendedores com projectos que do nada se podem vir a tornar vencedores à escala internacional. Claro que pretendo - e ambiciono - recolher proveitos financeiros mais tarde, mas a satisfação pessoal de apoiar a criação de um projecto que vai, por sua vez, sensibilizar outros empreendedores é para mim um dos aspectos mais importantes.
Qual foi a sua decisão-chave e que forma é que isso influenciou a sua vida?
A decisão-chave foi sair da “norma”, das perspectivas que apontavam para uma carreira estável e promissora no sector bancário para onde tinha sido convidado e, em vez disso, criar a minha própria empresa - a Gesbanha. Este passo foi dado aos 23 anos e traçou todo o meu percurso profissional. Trouxe-me muitas dores de cabeça, muitas decisões difíceis e algumas situações de aperto. No entanto, sabe bem olhar para trás e ver todos os obstáculos que foram ultrapassados e ainda hoje continuo a acordar motivado para “empreender”. Podem surgir muitos obstáculos e obrigar-me a alterar ou a refazer planos. Todavia, desistir dos meus objectivos é algo que nunca fiz, nem farei.
Uma das melhores qualidades – senão a melhor qualidade - que define um Empreendedor é a perseverança, mesmo quando os objectivos se revelam aos olhos de muitos inalcançáveis. Mas é precisamente aí, quando se ultrapassa aquilo que é encarado como um limite para muitos, que a verdadeira fibra de um empreendedor se revela.
O “ecossistema” português é ideal para o empreendedorismo?
O ecossistema empreendedor português não é ainda o ideal. Existe uma dinâmica na sociedade que valoriza o empreendedorismo e esse é talvez o passo mais importante. Encontramo-nos, porém, numa situação de alguma “desorganização” do empreendedorismo português. Já escrevi artigos que reclamam a necessidade de um Ministério do Empreendedorismo para uma maior coordenação das diversas iniciativas. É importante que a multiplicação de esforços resulte numa multiplicação da eficácia e não se desperdicem recursos devido ao isolamento em que vivem várias iniciativas. Por exemplo, porquê fazer 20 concursos de planos de negócio a nível nacional com prémios quase “simbólicos” em vez de realizar um concurso com maior qualidade e em que o prémio permita efectivamente o financiamento da própria empresa?
Ao nível do financiamento, foram dados importantes passos em 2009-2010 com a criação de um fundo de co-investimento com Business Angels e com a possibilidade destes poderem deduzir parte dos seus investimentos em sede de IRS. Espero que brevemente o financiamento early stage se torne mais corrente e seja finalmente coberta a falha de mercado que tem existido no financiamento das fases iniciais de desenvolvimento de projectos.
PERFIL Francisco Banha é CEO das empresas Gesbanha, Gesventure, GesEntrepreneur e GesEvolution. É presidente do Business Angels Club e da FNABA – Federação Nacional de Associações de Business Angels e integra as direcções das estruturas europeia e mundial de BA (EBAN e WBAA).


















