zar a pesca, o turismo e a hotelariaEsperança no futuro. Dito assim, de um fôlego só, podia ser apenas o nome de um barco de pesca, com nome feminino, como manda a tradição. Visto à lupa é mais uma contradição, sobretudo se tivermos em conta as perspectivas de António Murraças, 53 anos de vida, 39 dos quais vividos no mar. Filho e neto de pescadores, é com pena que reconhece que na família não terá hipótese de ver a continuidade do seu trabalho. Muito por culpa da política das pescas, que faz com que “em cada 100 pessoas que se formam no Forpesca (centro de formação), apenas uma acabe por ir para o mar”, ilustra, explicando que, ao contrário de outros países, Portugal não atrai os jovens para o mar. É que, sem salário fixo, é complicado convencer os mais novos a prosseguir numa actividade que tem tanto de incerto como as intempéries do mar, corrobora Bruno Vidal, presidente da Associação de Armadores/Pescadores da Nazaré. “Se na primeira semana que vai para o mar não pesca nada e, por isso, não recebe, o jovem acaba por desistir”, justifica este dirigente.
Factores a que António Murraças junta outras questões. Como a falta de respeito que todos os pescadores têm em relação às normas da pesca, acusa, não rejeitando as culpas próprias de quem fez do mar a sua casa. Por isso defende sem hesitações que a fiscalização tem de aumentar, com multas pesadas para garantir que deixam de ser pescados peixes abaixo do tamanho (que muitas vezes são juvenis e ainda não procriaram) e que os recifes e corais deixam de ser mortos e destruídos, como tem acontecido ao longo da nossa costa.
400 milhões para começar
É a convicção de que é possível salvar a pesca tradicional, “um dos elementos que compõe a nossa identidade nacional”, que leva Jorge Barroso, presidente da Câmara da Nazaré, a defender de forma aguerrida a colocação de recifes artificiais ao largo da Nazaré. Por um lado, argumenta o edil, será a pesca a primeira aposta a ser ganha com o projecto “Viver o mar”, projecto-piloto na costa oeste atlântica. Por “arrasto”, além de potenciar a pesca artesanal, o projecto pretende também criar benefícios ambientais, como a preservação das espécies e a estabilização das areias e mesmo potenciar o turismo, aliado à grande capacidade da região nessa matéria e propor a
aposta no turismo ligado à pesca desportiva, como vem acontecendo, cada vez mais noutros países como a Itália, por exemplo.“Achamos que a Nazaré deve continuar ligada ao mar, quer pela náutica, quer pelo turismo, sem nunca perder a pesca, que necessita de uma intervenção sustentada”, defende Jorge Barroso.
Quanto à execução do projecto, o edil prevê que dentro de dois meses os parceiros intervenientes apontem os dados da viabilidade da colocação dos recifes artificiais, com informações que possam dar a garantia científica à sua prossecução.
Numa primeira abordagem, “podemos falar de um investimento de cerca de 400 mil euros”, disse à
Jorge Barroso, para cujo financiamento admite duas alternativas. A primeira delas passaria por aguardar que a Nazaré fosse transferida da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região de Lisboa e Vale do Tejo para a sua congénere do Centro, podendo candidatar-se a apoios comunitários. Uma opção demasiado morosa na óptica do presidente da Câmara da Nazaré, para quem este projecto já devia ter começado “ontem”, pelo que a segunda alternativa – protocolar ou assinar com o Governo um contrato-programa – surge como a mais apelativa e eventualmente célere. Para o presidente da edilidade nazarena, entre os objectivos da colocação de recifes, contam-se a revitalização da pesca, nomeadamente da artesanal e mesmo “a recuperação da tradição de trazer ao areal os barcos, podendo vender o pescado directamente, de forma legal e taxada”. Mas não só. É que este processo, explica o autarca, iria evitar a passagem pela lota (obrigatória por lei), permitindo um acréscimo da qualidade do peixe, que chegaria mais rapidamente às mesas, mesmo dos restaurantes locais, contribuindo para melhorar a qualidade do turismo. Outros ganhos deste projecto relacionam-se com o aumento da fiscalização em todo o processo, a possibilidade de criar alterações legislativas para tornar a pesca mais atractiva para os jovens, o maior controlo que obrigue a respeitar o defeso (época em que não se pescam determinadas espécies) e o controlo da pesca por “arrasto” em locais proibidos.
Tudo isto com o corolário de potenciar o turismo na região e de alavancar a sua ligação à pesca artesanal, de tão boa tradição naquela vila piscatória.
S.C.S.
Parte do artigo publicado na edição nº 1 da
, em Fevereiro de 2005

















