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Portugal, a Europa e a Geografia - por Nogueira Leite

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António Nogueira LeiteANÁLISE Por António Nogueira Leite

“A proximidade física dos grandes mercados é uma consideração importante para a capacidade de atrair Investimento Director Estrangeiro, mesmo nestes dias de revoluções nas tecnologias de comunicação e de redução dos custos de transporte”.

Como já se banalizou entre os economistas e políticos nacionais, a baixa produtividade do factor trabalho é um dos principais problemas da economia portuguesa. Diria mesmo que é o principal, porque é uma das razões pelas quais a nossa Administração Pública é desmesuradamente grande, e porque explica, por outro, porque é que vivemos pior que a generalidade dos outros europeus.
O diagnóstico está feito, as terapias são conhecidas, mas falta o essencial que é levar à prática as reformas que induzirão as condições para uma maior criação de riqueza.

Neste contexto, o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) poderá ter um papel fundamental. Em primeiro lugar, pelos seus efeitos directos. Em economias carentes de capital para crescer, como é o caso da nossa, há necessariamente que o importar. Podemos importar “capitais próprios” - isto é, IDE - ou “capitais alheios” - isto é, dívida externa.  Se mais motivos não houvesse, o IDE tem a vantagem de ser mais estável em situações de crise financeira do que outras formas de capital (movimentos de carteira ou empréstimos bancários internacionais) como, aliás, a crise asiática de 1997 recordou.

O IDE tem também efeitos indirectos que são os mais importantes e fundamentais para que o nosso País “descole” para um patamar de riqueza mais próximo do que predomina no resto da União Europeia. Em primeiro lugar, porque facilita a transferência internacional de bens, serviços, capitais e tecnologia. Em segundo lugar, porque é através do investimento estrangeiro que mais facilmente se acede a redes globais de capital, tecnologia e marketing. Em terceiro lugar, porque a abertura ao IDE estimula a concorrência na economia nacional e promove a sua liberalização reduzindo, assim, fenómenos de ineficiência. Finalmente, porque a presença de empresas multinacionais difunde best practices no governo das empresas e, também, nas próprias instituições e tradições legais do nosso país (como, aliás, acontece em qualquer outro).

Porém, para que Portugal possa beneficiar destes efeitos tem de vencer uma corrida onde estão presentes “corredores” mais bem preparados e poderosos: porque têm uma população mais educada e preparada para os desafios de um mundo mais competitivo, porque têm as finanças públicas em melhor estado e portanto terão menores cargas fiscais no futuro, porque têm melhores infra-estruturas, porque são menos burocratizados, etc. Para além do mais, muitos desses “corredores” estão mais bem posicionados geograficamente porque mais perto de mercados finais ricos e vastos, e que já estão bem posicionados nesta corrida.

De facto, a proximidade física dos grandes mercados é uma consideração importante para a capacidade de atrair IDE, mesmo nestes dias de revoluções nas tecnologias de comunicação e de redução dos custos de transporte. A geografia, todavia, não se escolhe nem pode ser alterada, e Portugal encontra-se na periferia do maior e mais rico mercado do mundo. Tal constitui uma desvantagem na concorrência com países da Europa Central e de Leste, que em breve entrarão na União Europeia.

Se bem que a geografia não possa ser alterada, é certamente possível ajustar as estratégias por forma a explorar algumas das suas virtudes. Estas radicam na proximidade do também importante mercado espanhol. Considerações de localização física sugerem, pois, a Península Ibérica como o mercado privilegiado para o IDE, contemplando Portugal como destino. Nesta perspectiva, os principais destinos concorrentes de Portugal serão as restantes regiões peninsulares mais do que os países do Centro e Leste da Europa. Nessa concorrência pela captação de IDE, fontes de vantagens de localização como a qualidade das infra-estruturas físicas, as competências da força de trabalho, a flexibilidade dos mercados, o funcionamento das instituições serão determinantes e Portugal deve, sem complexos, almejar ser aí a melhor das regiões peninsulares.


PERFIL António Nogueira Leite, de 43 anos, licenciado em Economia, é professor catedrático na Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa, desde 1995.
É administrador-executivo da CUF, SGPS, e (não executivo) da Reditus, Brisa e Quimigal.
É membro do Conselho Nacional do Mercado de Valores Mobiliários e vice-presidente do Conselho Consultivo do Banif Banco de Investimentos.

Análise publicada na edição da INVEST nº 3, de Maio de 2005
Actualizado em ( Terça, 11 Novembro 2008 12:49 )  


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