ANÁLISE Por Carlos Francisco e Silva“Ter a noção de que o espaço que partilhamos é de todos e que somos donos de muito pouco é determinante para reavaliarmos as nossas decisões.”
Em 1993, cerca de 9.000 pessoas bloqueavam uma estrada na costa da ilha de Vancouver, British Columbia, Canadá. Protestavam com uma empresa florestal cuja intenção era abater uma área considerável de floresta antiga. Madeireiros, nativos e grupos ambientais da América do Norte e Europa juntaram esforços em prol da missão de proteger as árvores centenárias. Conseguiram a atenção dos media internacionais, mas também de alguns dos maiores clientes da dita empresa, que de imediato pensaram na reacção dos seus clientes. Aquilo que parecia ser um incidente isolado estava transformado num boicote internacional. Os preços das acções caíram e a moral dos trabalhadores foi amplamente afectada.
Nos tempos que passam, ter a noção de que o espaço que partilhamos é de todos e que somos donos de muito pouco é determinante para reavaliarmos as nossas decisões. A construção de relacionamentos colaborativos constitui hoje um dos maiores desafios organizacionais. A estima por certos valores, o benefício mútuo e a reciprocidade estão na base de muito do sucesso empresarial de algumas empresas de alguns países como o Canadá. Ganhar à custa dos outros parece ser um modelo que está fora de moda, eticamente é repudiável e representa uma postura mental e cultural retrógrada. A construção de laços e sistemas de confiança representa um desafio grande que requer um quadro mental diferente válido para todos os stakeholders. A tradução mais próxima será visível no clima, reputação, imagem, motivação, produtividade, competitividade, e nos clientes. Escusado será dizer que nos resultados também. As oportunidades estão aqui, bem perto da nossa mente.
Bem, mas não queria terminar sem referir que seis anos mais tarde, em 1999, aconteceu algo no mínimo interessante. A empresa florestal assinava um memorando de entendimento com os líderes das várias organizações que encetaram a dita acção de bloqueio. Esse memorando visava a comercialização conjunta dos produtos florestais. A empresa “ganhou a guerra” das madeiras criando e construindo relacionamentos com os stakeholders internos e externos. Nestas guerras não há derrotados.
PERFIL Carlos Francisco e Silva, natural e residente em Leiria, é licenciado em Relações Internacionais Económicas e Mestrado em Economia Internacional. É coordenador do Departamento de Gestão do ISLA-Leiria.
Análise publicada na edição da
nº 3, de Maio de 2005

















