ANÁLISE Por Paulo Bento
“Entre a minoria que sabe que a economia real é como o azeite, alguns chamaram oportunamente a atenção, mas foram criticados, como Paul Krugman ou Nouriel Roubini (…)”
As crises são como a morte: certas (embora nunca se esteja preparado), antecipáveis (embora nunca com exactidão), dolorosas (embora sentidas e exteriorizadas de forma diferente), injustas (pois nem sempre apanham quem deviam), aniquiladoras da ilusão (pois confirmam que nada dura para sempre), férteis em veredictos póstumos (por norma absolve-se ou condena-se a quente, de forma superficial ou politicamente correcta).
Espanta por isso tanta surpresa, por parte de governantes, de supervisores, de profissionais do sistema financeiro e não só. Da mesma forma que os avanços na medicina trouxeram longevidade ao ser humano, a globalização prolongou inesperadamente o ciclo que agora termina; contudo, o declínio iniciou-se há já vários anos. Era inevitável, apesar de entretanto, em defesa da estabilidade, do rápido restabelecimento da confiança e da sanidade mental colectiva, se ter continuado a campanha em favor do factor surpresa.
Entre a minoria que sabe ou não esquece que a economia real é como o azeite, alguns chamaram oportunamente a atenção, mas foram convenientemente criticados ou marginalizados - Paul Krugman ou Nouriel Roubini, por exemplo. No que concerne aos mercados financeiros, Warren Buffet e George Soros, há muito que advertiram que o “subprime” era uma arma de destruição maciça.
Os mercados financeiros desfazaram-se por completo da realidade (típico de tempos em tempos, dando origem às famosas “bolhas”) e, como se não bastasse, o sector bancário envolveu-se, como nunca, na organização da festa. Em conjunto, sedearam uma clínica de cirurgia plástica em “Wall Street”, tendo como alvos activos ainda merecedores de intervenção, mas também outros já moribundos ou mesmo putrefactos. Depois efectuaram “road shows” nos EUA e pelo Mundo - graças à omnipresente ganância, o sucesso foi estrondoso.
Uma parte das análises já efectuadas têm-se centrado nos efeitos desta(s) crise(s), realçando o drama e fazendo figas para que se fique por aqui. Outras, mais ambiciosas, prescrevem ou apoiam soluções que resolvam rapidamente o(s) problema(s) e contribuem para criar heróis entre os governantes. Outros debruçam-se sobre as causas e só depois arriscam prescrições; contudo, dão importância exagerada às formas, quando o que releva é a substância.
A volatilidade dos mercados e a instabilidade geral estão ao rubro e as dúvidas são muitas. Experimente comparar o que se dizia em reputados jornais há três, seis e 12 meses sobre o futuro próximo das cotações do petróleo, do preço dos cereais, ou da crise financeira. Constatará o seguinte: ou não se tem dito o que pensa ou não se faz a mínima ideia do que se tem passado e, por maioria de razão, vai passar. Hoje mais que no passado, a generalidade dos prognósticos têm credibilidade limitada, por razões como:
• evidentes conflitos de interesse;
• muitos dos gurus das previsões têm o emprego por um fio, ou fortes rabos-de-palha na arte de manipulação da opinião geral;
• existir incapacidade efectiva de avaliação dos activos bancários e financeiros (desta vez à semelhança do que acontece aos pequenos aforradores, os bancos também não conseguem avaliar os outros bancos);
• o que distingue esta crise de todas as outras não é o forte envolvimento da banca, mas sim ser a primeira crise verdadeiramente global, com uma velocidade de propagação nunca vista (Alan Greenspan, conhecendo o poder corrosivo do modelo, era ainda presidente do FED quando admitiu ter consciência da ausência de antídoto eficaz à sua rápida propagação).
O ajustamento que se iniciou e se vai prolongar é bem mais profundo do que as análises a quente espelham. Não se trata apenas de problemas no imobiliário, na banca e nos mercados financeiros (que contaminaram a economia real), nem é só um conjunto de problemas com epicentro nos EUA e transmitido ao Mundo… é também um problema social.
PERFIL Paulo Bento, 39 anos, é co-fundador da 4V - for value, e professor de Estratégia e de Projecto Empresarial Aplicado no ISCTE.
Foi consultor no Banco de Portugal entre 1992 e 1999 (onde analisou as principais fusões e aquisições na banca). É licenciado em Organização e Gestão de Empresas (ISCTE, 1992), mestre em Finanças (ISCTE, 1998) e doutorado em "Fusões, Aquisições e Reestruturações de Empresas" (Universidade de Manchester, Reino Unido, 2004).
Análise publicada na edição da
nº 46, de Novembro de 2008


















